ECUMENISMO

Primeira Parte

A base moral do Espiritismo

Inicialmente, destacamos uma parte da Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo, porque acreditamos que, no referido texto, Kardec enfocou aspectos fundamentais para o entendimento da essência do Espiritismo.

Ele diz assim:

Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamentação de seus dogmas; e o ensino moral.

As quatro primeiras tem sido objeto de controvérsia; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva.

É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual todos podem colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto ele jamais constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas.

Reunimos, nesta obra, os artigos que podem compor, a bem dizer, um código de moral universal, sem distinção de culto.

Esta obra é para uso de todos. Dela podem todos haurir os meios de conformar com a moral do Cristo o respectivo proceder. (Introdução Evangelho Segundo o Espiritismo, FEB, pág. 25).

A partir dessa leitura, pensamos em pesquisar como Kardec teria desenvolvido esses apontamentos em outras obras. Encontramos diversos textos e chegamos ao livro Viagem Espírita em 1862.

Percebemos, nessas obras, a ênfase de Kardec nas questões essenciais do Espiritismo e na importância da sua compreensão real para que não caíssemos, mais uma vez, nas ilusões da falsa compreensão da religiosidade.

Destacaremos o enfoque moral em variados livros, para que possamos entender as sutilezas e a profundidade da abordagem de Kardec no Evangelho Segundo o Espiritismo. Os comentários se referem às instruções dadas por ele e pelos espíritos superiores.

1) O código moral universal

“O ponto capital do Espiritismo é o lado moral; é aí que devemos envidar todos os nossos esforços para fazê-lo compreendido.

“As questões de moral são de todas as religiões e de todos os países”. (Viagem espirita em 1862, FEB, pág. 112)

Kardec nos explica que a questão moral é a mais importante, e, sendo o Espiritismo essencialmente cristão, a doutrina que ele ensina é tão somente o desenvolvimento e a aplicação da doutrina do Cristo, que é a mais pura de todas. E a superioridade da doutrina do Cristo não é contestada por ninguém, prova evidente de que é a lei de Deus. Logo, a moral está a serviço de todos.

Além disso, na obra O que é o Espiritismo, Kardec nos esclarece que o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões, que são as seguintes: Deus, a alma, sua imortalidade e individualidade, as penas e as recompensas futuras, o livre arbítrio e a Lei de Amor. Se o Espiritismo negasse esses princípios, ele seria contrário a todas as religiões do mundo e seria, ainda, a negação das leis morais, o que não é o caso. Kardec, nesse mesmo livro, ressalta:

Ele [O Espiritismo] repousa em princípios independentes das questões dogmáticas. Suas conseqüências morais são todas no sentido do Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura, razão pela qual, de todas as seitas do mundo, os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. (O que é o Espiritismo).

Por que os cristãos compreendem melhor o espiritismo? Porque não se apegam aos dogmas, mas à moral, que é a essência do Cristianismo, e, conseqüentemente, do Espiritismo.

E se a moral é o principal aspecto a ser considerado, não há que se falar em distinção de culto ou no estabelecimento de um novo culto. O objetivo da doutrina é a busca da caridade, da união, e não da separação, do sectarismo ou da extinção das formas particulares de adoração a Deus.

Essa parece ser mensagem dos Espíritos em variadas obras.

Vejamos:

2) Não há distinção de culto:

[O Espiritismo]... pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de se adorar a Deus. È o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.

(Revista Espírita 1868, FEB, pág. 495, Allan Kardec).

Se o Espiritismo é uma verdade, se deve regenerar o mundo, é porque tem por base a caridade.

Ele não vem derrubar os cultos nem estabelecer um novo;proclama e prova verdades comuns a todos, sem se preocupar com detalhes. Não vem destruir uma coisa, senão o materialismo, que é a negação de toda a religião; não vem pôr abaixo senão um templo: o do egoísmo e do orgulho, mas vem dar uma sanção prática a essas palavras do Cristo, que são toda a sua lei: Amai ao vosso próximo como a vós mesmos.(Viagem Espírita em 1862, FEB, pág. 87, Allan Kardec).

O Espiritismo nada vem destruir, porque assenta suas bases no próprio Cristianismo.

Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição.

Não é, pois, como o pretendem alguns, uma religião nova, uma seita que se forma à custa das mais antigas; é uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disso é que tem aderente em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes e os muçulmanos. (Viagem Espírita em 1862, FEB, pg. 193/194, Allan Kardec).

O Espiritismo não veio, portanto, destruir convicções, crenças, e sim, uni-las. Quando Kardec menciona no texto acima que o Espiritismo pode conciliar-se com todos os cultos, não podemos nos esquecer do significado da palavra conciliar, que é harmonizar-se, aliar-se. A idéia, portanto, é de aproximação, união, e não de afastamento, divisão.

Por isso o Espiritismo é ecumênico por excelência, como o é o Evangelho.

E essa mentalidade ecumênica é a própria mentalidade cristã, mentalidade vinculada aos cinco princípios básicos que unem todas as religiões (Deus, a alma, sua individualidade e imortalidade, as penas e as recompensas futuras, o livre arbítrio e a Lei de Amor), e não aos princípios doutrinários secundários da doutrina, tal como a reencarnação.

Se em nome da defesa dos princípios secundários, nós nos afastarmos de irmãos que não comungam das mesmas crenças que nós, estaremos sendo sectários e incoerentes, já que o entendimento real do Espiritismo proporciona a união e a caridade, e não a separação.

A idéia ecumênica está ligada a uma lei maior, que é Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Outro ponto que gostaríamos de destacar diz respeito à utilização de sinais exteriores e símbolos no Espiritismo. Kardec nos revela que esse questionamento era muito comum, razão pela qual selecionamos as seguintes explicações, fornecidas pelo próprio Kardec, com o auxilio dos Espíritos:

3) Considerações sobre a prece no espiritismo e o uso de sinais exteriores nos cultos

Nas reuniões espíritas a prece predispõe ao recolhimento, à seriedade. É dizer que devam ser transformadas em assembléias religiosas? De modo algum. O sentimento religioso não é sinônimo de profissionalismo religioso; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões esse último caráter. É com esse último objetivo que temos desaprovado constantemente as preces e os símbolos litúrgicos de um culto qualquer. Não se deve esquecer que o Espiritismo deve tender à aproximação das diversas comunhões; já não é raro ver nessas reuniões se confraternizarem representantes de diversos cultos, razão por que ninguém deve arrogar-se a supremacia.

Que cada um em particular ore como entender; é um direito de consciência, mas numa assembléia fundada sobre o princípio da caridade, devem abster-se de tudo o que pudesse ferir susceptibilidades e tender a manter um antagonismo que, ao contrário, é preciso esforçar-se para o fazer desaparecer.(Revista Espírita, FEB, 1866, Allan Kardec).

Tudo nas reuniões deve passar-se religiosamente, isto é, com gravidade, respeito e recolhimento.

Mas não devemos esquecer que o Espiritismo se dirige a todos os cultos; que, por conseqüência, não deve adotar as formalidades de nenhum em particular.

O Espiritismo, chamando a si todos os homens de todas as crenças, para uni-los sob a bandeira da caridade e da fraternidade, habituando-se a se olharem como irmãos, seja qual for sua maneira de adorar a Deus, não deve chocar as convicções de ninguém pelo emprego de sinais exteriores de um culto qualquer.

Poucas são as reuniões espíritas, por menores que sejam, sobretudo na França, em que não haja membros ou assistentes pertencentes a diferentes religiões. Se o Espiritismo se colocasse abertamente no terreno de uma delas, afastaria as outras. (Viagem Espírita em 1862, FEB, pg. 137/138, Allan Kardec).

Kardec nos esclarece, também, que essas considerações somente seaplicam aos grupos e sociedades formados de pessoas estranhas umas às outras, mas de modo algum às reuniões íntimas, nas quais, naturalmente, cada pessoa é livre para agir como bem entender, desde que ali não se melindra a ninguém.” (Viagem Espírita em 1862, FEB, Pg. 139).

Kardec nos explica que, no Espiritismo, não há ritual para que não se fira a ninguém. A adoção de determinado culto judeu poderia ofender um protestante, por exemplo. E isso causaria uma cisão.

O problema é que o culto do espírita acaba sendo o não fazer culto exterior, com a abstenção do uso de imagens, sinais exteriores, mas, na prática, as características de um culto, muitas vezes, são adotadas na abordagem do Espiritismo.

Até que ponto, hoje, o Espiritismo já não é considerado uma nova religião, com características de “culto” bem definidas? Até que ponto o foco do espírita de hoje é a moral, a união das religiões, a recepção de pessoas das mais diversas linhas de pensamento e sentimento? O que deve ser feito e ensinado como foco central ao público que freqüenta uma casa espírita, baseando-nos no que vimos até agora? Como um Espírita, sem nenhuma formação cristã, poderá atender às necessidades das variadas seitas cristãs ao seu derredor?

Estamos tão acostumados com a assertiva da necessidade de cristianização, que muitas vezes achamos lugar comum a repetição desse discurso, além da idéia de que priorizar a moral seria o mesmo que se ater à superficialidade dos ensinos, o que não é verdade. O problema é que, não poucas vezes, tal necessidade nos escapa ao entendimento e à concepção. A busca pela moral é o que de mais profundo o Cristo veio nos trazer, até mesmo porque ele foi quem mais profundamente pregou, vivenciou e exemplificou essa moral.

Apelar para Jesus e Seu Evangelho é uma condição didática primordial.

É por isso que a cultura dos valores evangélicos verdadeiros nos dará a intuição de onde poderemos ir, no caminho da fé, sem violentarmos os outros. Dar-nos-á, também, o respeito devido a cada um de nós, pois a Igreja Cristã comporta todos os tipos de personalidades, desde que sob a bandeira da fraternidade.

E a busca sincera pela moral, naturalmente, abre o caminho e o interesse para a abordagem adequada das outras questões. Não é só falar de amor, mas buscá-lo com sinceridade. Se a fraternidade for o aspecto principal, não há problema em estudar algo sobre o qual nem todos acreditam. A união, portanto, é o fator mais importante.

Nesse sentido, encontramos algumas observações de Bezerra de Menezes:

O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e homens de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal. (Bezerra de Menezes, Atitude de Amor, Ed. Dufaux, pg. 22).

Essa proposta já havia sido feita por Kardec no livro Viagem Espírita em 1862. Vejamos:

Em resumo, jamais o Espiritismo aconselhou a mudança de religião, nem o sacrifício de suas crenças; não pertence particularmente a nenhuma religião, ou melhor dizendo, está em todas elas.(Viagem Espírita em 1862, FEB, pg. 195,Allan Kardec).

Alguns, com certeza, já interpretaram tais palavras como sendo a ausência do sentimento moral religioso nos centros espíritas, o que os transformaria em institutos de excelência intelectual espiritualista. No entanto, Kardec não dispensa o sentimento religioso em suas reuniões “Tudo nas reuniões deve passar-se religiosamente, isto é, com gravidade, respeito e recolhimento.” Isso prova que o ensino moral deverá estar na base de tudo o que se ensinar. Recapitulando-se, então, o que é dito no Evangelho Segundo o Espiritismo, o ensino moral e a fraternidade devem ser o objetivo primordial do indivíduo e, conseqüentemente, da instituição. Assim fazendo, dificilmente criaremos o sentimento de divisão, pois o foco no ensino moral causa o fim do sectarismo, segundo o próprio codificador. Bezerra de Menezes completa:

“Esse investimento no homem é a nossa chance de subtrair a noção inferior  que tenta subjugar o Espiritismo a mera religião de formalidades atualizadas, e colocá-lo, onde deveria estar, no patamar de roteiro lúcido de educação integral da humanidade.”(Atitude de Amor, Editora Dufaux, pg. 22).

Tudo isso para que caminhemos, juntos, para o fiel cumprimento das palavras de Jesus:“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros". (João cap.13; v.35.)

Ficam, então, essas mensagens para serem estudadas, refletidas, meditadas...

Segunda Parte

Comentários extra

Ecumenismo

A palavra Ecumenismo vem do termo grego oikoumene, cujo significado é "mundo habitado" ou, ainda, "aquilo que pertence a este mundo". Historicamente, abrange os aspectos geográficos, culturais, políticos.

Segundo o Dicionário Aurélio, ecumenismo é o movimento que visa à unificação das igrejas cristãs. A definição eclesiástica é mais abrangente, traduzindo o termo como a aproximação, a cooperação, a busca fraterna da superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs. (Revista Defesa da Fé, n nº 24, Eloy Melonio).

A proposta é de fraternidade, de união, de aprendizado recíproco, de troca.

Entretanto, é comum haver uma repulsa pelo tema no que diz respeito à abordagem religiosa. Acreditamos que o receio que temos de Ecumenismo tenha relação com o medo de conivência com o erro. É similar ao medo de perdoar aquele que errou. Ser ecumênico, no entanto, é priorizar a fraternidade. O Ecumenismo não pressupõe a aceitação dos erros religiosos, assim como o perdão não pressupõe a aceitação do erro. Mas também não preconiza a separação das pessoas, mas a união e respeito às diferenças.

E para que não sejamos influenciados pelos dogmas das diversas religiões, precisamos compreender o Espiritismo, em especial os cinco princípios básicos sobre os quais já fizemos referência.

Além disso, é preciso compreender que o ecumenismo é a concretização da caridade por excelência, uma vez que está diretamente relacionado à humildade de aceitarmos a diversidade dos caminhos que conduzem a Deus e com os quais poderemos aprender, e muito.

 A abordagem ecumênica tem como objetivo a busca pelo Cristianismo em sua essência. Não se trata do apego às questões particulares das diversas escolas Cristãs, conforme o interesse pessoal de cada um, de acordo com as conveniências, com a criação de uma “nova seita diversificada”, misturando aspectos secundários. O Ecumenismo é um caminho para crescermos se nos ativermos ao que há de mais cristão nos diferentes grupos, e não aos dogmas particulares de cada um deles. A referência é, sempre, Jesus Cristo. No livro Boa Nova, Humberto de Campos nos auxilia no entendimento desse último aspecto:

Naquela noite de imperecível recordação, foi confiado aos quinhentos da Galiléia o serviço glorioso da evangelização das coletividades terrestres, sob a inspiração de Jesus Cristo. Mal sabiam eles, na sua mísera condição humana, que a palavra do Mestre alcançaria os séculos do porvir. E foi assim que, representando o fermento renovador do mundo, eles reencarnaram em todos os tempos, nos mais diversos climas religiosos e políticos do planeta, ensinando a verdade e abrindo novos caminhos de luz, através dos bastidores eternos do Tempo. (Boa Nova, FEB, pg. 195, Humberto de Campos/Francisco C. Xavier).

Destacamos o trecho acima porque, mais uma vez, os espíritos tentam explicar que somos convidados ao entendimento de que há apóstolos nos diversos templos e que muito temos a compartilhar uns com os outros.

Vale lembrar que o Espiritismo, na sua feição de Doutrina, é recente. Por outro lado, as tradições das outras escolas religiosas já existem há muito tempo e não há razão para abandonarmos o que de melhor já conquistaram em matéria de fé, de adoração. O objetivo é resgatar e sublimar o que já foi adquirido. Nós somos espíritos milenares que já vivenciamos experiências positivas, ainda que mescladas de erros. E hoje, o contato saudável com irmãos que encontraram a fé e os caminhos para alcançá-la em outras denominações religiosas pode nos ajudar na nossa busca sincera por Deus, nas questões do sentimento. Além disso, essa convivência tem relevante papel, porque corrige questões de ênfase na nossa abordagem que, muitas vezes, é meramente racional, visto que, comumente, o espírita não teve a formação de mentalidade em outras escolas cristãs. Entretanto, sem a humildade, não há espaço para reflexão acerca de questões tão importantes como essas. Mais uma vez, é imprescindível não esquecer que o Espiritismo não veio para destruir, veio para acrescentar.

Exemplos

Nesse sentido, temos um exemplo no livro Viagem Espírita em 1862. Trata-se do relato de um operário que descreve ter sido violento, exaltado, e que não temia nem mesmo a justiça humana, pois não acreditava em Deus, na alma e achava que tudo estaria acabado com a morte. E por esta razão também não orava e desde a primeira comunhão não havia voltado à Igreja. Durante uma reunião espírita, esse mesmo trabalhador dá um depoimento emocionante, contando que o conhecimento do Espiritismo havia transformado a sua vida, seu caráter, sua confiança em Deus e que, com isso passara a orar e freqüentar a Igreja todos os dias. Esse rapaz não abandonou a sua religião católica. Com o conhecimento espírita, ele conseguiu resgatar a sua fé e se tornar um católico melhor. (Viagem Espírita em 1862, FEB).

No livro Novas Mensagens, Humberto de Campos nos traz revelações colhidas numa visita ao planeta Marte por uma caravana de espíritos superiores. Ele nos conta que visitou um templo maravilhoso situado numa praça onde haviam se reunido todos os credos religiosos do referido planeta. (Novas Mensagens, FEB, pg. 61).

Mas poderíamos questionar: Se Marte é um planeta bem mais evoluído do que a Terra, não seriam lá todas as pessoas espíritas? Qual a razão da diversidade de credos?

Acreditamos que uma das razões resida no fato de que cada espírito possua a sua bagagem espiritual milenar e individual. Trata-se da questão da afinidade. Cada um tem sua cultura, sua família e seus hábitos, que devem ser respeitados.

Há também um exemplo no livro Ação e Reação (Ação e Reação, FEB, cap. 11): André Luiz faz a descrição de um templo localizado no Umbral que era freqüentado tanto por desencarnados quanto por encarnados durante o sono. E nesse templo havia somente a imagem de uma cruz e alguns nichos vazios ao redor. André Luiz faz um questionamento acerca do significado desses objetos e o mentor que conduzia o trabalho nessa região explica que a cruz tinha como objetivo lembrar a todos os visitantes que Jesus se encontra presente mesmo nos locais de tanto sofrimento. E que os nichos vazios davam a oportunidade para todos se dirigirem ao céu, segundo a fé que abraçassem. Então, alguns faziam orações de pé, outros ajoelhados. Além disso, conforme o pensamento de cada um, imagens eram plasmadas nesses nichos. Assim, imagens de diversas santas católicas apareciam para alguns e para outros a visão era de Bezerra de Menezes, por exemplo.  E isso ocorria, porque cada pessoa tinha as suas afinidades, sua cultura. O Mentor explica, ainda, que esse local era um lugar de oração digna, sem cultos especiais.

Esclarecimentos de Bezerra de Menezes

No livro Atitude de Amor, Bezerra de Menezes afirma que apesar do progresso e das conquistas, ainda nos encontramos na infância do nosso movimento libertador,ante a envergadura da missão a nós confiada na humanidade. E que:

Ninguém pode vendar os olhos a título da caridade, porque deliberadamente o apego institucional marcou esse segundo período de nossas lides, em muitas ocasiões, com enfermiças atitudes dedesamor com forte influência atávica de milenares vivências. Isso era previsível, e, por fim, repetimos velhos erros religiosos...(Atitude de Amor,Bezerra de Menezes).

De acordo com Bezerra de Menezes, o problema não é o institucionalismo, mas os excessos que o tornam nocivo. Quando os homens forem bons farão boas instituições, asseverou Allan Kardec. Ele continua:

Nosso maior inimigo, de fato, é oorgulho em suas expressões inferiores de arrogância, inflexibilidade, perfeccionismo, autoritarismo, intolerância, preconceito e vaidade, seus frutos infelizes que, sem dúvida, insuflam a institucionalização perniciosa e incentivam o dogmatismo e a fé cega, adubando a hierarquização e o sectarismo.”

Nossa luta deve ser íntima e não exterior, não contra organizações, mas contra nós mesmos quando em atitudes praticadas sob o manto da mentira que acostumamos a venerar em favor de vantagens pessoais.

Esses desvios perpetrados lembram os primeiros momentos do Evangelho sobre a Terra, quando teve circunscrito seu raio de ação ao Judaísmo dominante. Tal realidade levou o mais Alto a chamar o espírito corajoso e nobre de Paulo de Tarso na ingente missão de servir para além dos muros institucionais da capital do religiosismo e tornar universal a mensagem do sábio Pastor.

Conclamamos novos apóstolos para a gentilidade nesse momento delicado de nossa seara,porque o orgulho humano reeditou, em larga amplitude, os ambientes estéreis à propagação dos ensinos do Senhor.

A renovação de atitudes na edificação de uma nova mentalidade solicita uma inevitável mudança cultural em nossos ambientes doutrinários. (...)

Com a leitura desses textos, podemos constatar que a questão cultural é muito séria.

Os próprios apóstolos de Jesus foram influenciados, acreditando alguns, na época, que só os circuncidados seriam cristãos. Se não fosse a abordagem ecumênica do apóstolo Paulo, o Cristianismo, provavelmente, teria se perdido.

É por isso que precisamos ficar atentos quanto a nossa forma de abordagem do Espiritismo. Uma frase foi destacada notrailler, na qual Kardec nos chama a atenção dizendo que onde as obras dele penetrarem e servirem de guia, o Espiritismo será visto sob seu verdadeiro aspecto, isto é, sob um caráter exclusivamente moral.

Estamos fazendo uma interpretação moral ou meramente intelectual?

Importante refletirmos sobre tudo isso para fortalecermos nossa fé na moral evangélica, antes de tudo, sob pena de o segmento espiritista – não o Espiritismo em si – se transformar em mais uma seita espiritualista, intelectual e até elitista, enquanto o Espiritismo real pulsará grandioso lá fora, em meio aos que vibram, sofrem e prosperam com Jesus. O Espiritismo real tem que chegar à Terra inteira, independente dos espíritas e da forma.

E é nesse sentido que deveremos compreender as palavras dos espíritos superiores, quando afirmam que o Espiritismo não será a religião do futuro, mas o futuro das religiões e que se tornará crença comum.

Chico Xavier, por exemplo, fazia com que as pessoas gostassem do Espiritismo, porque colocava o amor acima de qualquer argumento e se relacionava com pessoas de todas as religiões e não tentava mudar a religião de ninguém. Ocorre que, muitas vezes, nós tendemos a estacionar no conforto, ou seja, não nos relacionamos com pessoas de outras crenças temendo um incômodo. De certa forma, é como se outras crenças “abalassem o nosso conhecimento e a nossa fé”, porque, devido ao nosso orgulho, não é fácil admitir que haja outros caminhos para a salvação. E há! Chico Xavier costumava dizer que se Allan Kardec tivesse escrito que fora do Espiritismo não há salvação, ele teria ido por outro caminho.

Bezerra de Menezes ainda afirma:

Hoje, mais do que nunca, precisamos permitir o “espírito do Senhor” na contenção de nossos impulsos de desagregação e isolamento.

É urgente trabalhar por uma cultura de trocas e crescimento grupal, habituando-se a ter nossas certezas abaladas pelo conflito e pela permuta, para que ampliemos a capacidade de enxergar com mais exatidão as questões que supomos terem sido esgotadas.

Essa diretriz conduzirá os homens a uma maior possibilidade de diálogo e intercâmbio, fazendo-os perceber a inconveniência do isolamento em muros de pseudo-sabedoria ou nas masmorras do autoritarismo institucional, ditando normas e idéias em nome de uma verdade exclusivista.

Dentre outras considerações, Bezerra de Menezes nos explica que a meta prioritária dos Espíritos Superiores jamais foi ou será incentivar dissidências a fim de comprovar a eficácia de alguma ideologia, porque, em verdade, todas cooperam para um destino comum no futuro. Ele completa:

Respeitaremos, em nome do amor, a quantos ainda estagiam nas formalidades e convencionalismos.

Firmaremos bases seguras fora dos limites da conveniência, para assegurar, aos mais novos que chegarão, a oportunidade de vislumbrarem horizontes que atendam às suas exigentes expectativas, com as quais renascerão no soerguimento desse período de moralização e atitude, nesse momento de Espiritismo por dentro e não fora de nossos corações.

Bezerra sugere ainda:“(...) criando ensejos ecumênicos para servirem de exemplos aos menos afeiçoados ao hábito da complacência com a diversidade do entendimento.” Cremos que essa mudança cultural seria uma tentativa para sairmos do sectarismo, com a ênfase nos princípios básicos.

Que as reuniões tenham um cunho familiar, mais intimista, como sugerido por Allan Kardec e Emmanuel, e menos intelectual.

Que a fraternidade seja buscada entre as casas espíritas também, ante a diversidade dos grupos, das reuniões.

Com isso, os princípios bem compreendidos do Espiritismo conseguiriam beneficiar as artes, a ciência, as leis, a filosofia e a religião através da mudança do próprio homem, segundo Bezerra de Menezes.

Obras utilizadas nesse estudo:

- Ação e Reação, FEB, cap. 11;

- Atitude de Amor, Editora Dufaux, pg. 22;

- Boa Nova, FEB, pg. 195;

- Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, FEB, Allan Kardec;

- Novas Mensagens, FEB, pg. 61;

- O que é o Espiritismo, IDE, Allan Kardec;

- Revista Defesa da Fé, n nº 24, Eloy Melonio;

- Revista Espírita 1866;

- Revista Espírita 1868, FEB, pág. 495;

- Viagem Espírita em 1862, FEB, Allan Kardec.