DISCURSO DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DE LYON E BORDEAUX: CARIDADE

Caridade: reforma do mundo

O presente estudo refere-se ao Terceiro Discurso de Kardec aos espíritas de Lyon e Bordeaux. Esse discurso foi destacado da obra Viagem Espírita em 1862, publicada pela FEB em 2005, por tratar da reforma moral da humanidade. Uma vez que sonhamos com um mundo melhor e mais feliz, com menos decepções e sofrimentos, acreditamos que esse tema seja de grande importância.

Kardec começa seu discurso dizendo que quem observasse a sociedade de 1862, seria tentado a ver a sua transformação em todos os níveis como um milagre. Diz ainda que esse milagre pode e deve ser feito com a ajuda do Espiritismo, por meio da máxima: “Fora da caridade não há salvação!” Se todos tomassem essa máxima por divisa e transformassem sua conduta de acordo com ela, tudo se modificaria.

Egoísmo x caridade

Esse discurso pode parecer demagógico e sem sentido, se não atentarmos para a gravidade da situação moral da humanidade e para a real acepção da palavra “caridade”. Kardec, para isso, coloca em foco o que é uma sociedade regida pelo egoísmo e o que é uma sociedade regida pela caridade verdadeira. Assim, poderemos associar a nossa vida individual e social com uma dessas realidades e ter em mente o problema para o qual a caridade é a única solução.

Uma sociedade egoísta, segundo Kardec em Viagem espírita em 1862:

Com o egoísmo, prevalece o interesse pessoal, cada um vive para si, vendo no semelhante apenas um antagonista, um rival que pode concorrer conosco, que podemos explorar ou que pode nos explorar; aquele que fará o possível para chegar antes de nós: a vitória é do mais esperto e a sociedade - coisa triste de dizer, muitas vezes consagra essa vitória, o que faz com que ela se divida em duas classes principais: os exploradores e os explorados. Disso resulta um antagonismo perpétuo, que faz da vida um tormento, um verdadeiro inferno.(pág. 80)

E uma sociedade baseada na caridade, segundo Kardec:

Substituí o egoísmo pela caridade e tudo se modificará; ninguém procurará fazer o mal ao seu vizinho; os ódios e os ciúmes se extinguirão por falta de combustível, e os homens viverão em paz, ajudando-se mutuamente em vez de se dilacerarem. Se a caridade substituir o egoísmo, todas as instituições sociais serão fundadas sobre o princípio da solidariedade e da reciprocidade; o forte protegerá o fraco, em vez de o explorar. (pág. 80)

Mas o que é a caridade verdadeira, capaz de realizar essa transição da mentalidade egoísta para a mentalidade cristã, que tem como pilar o amor? Temos visto, em nosso mundo material, em que a forma costuma ter mais valor que a essência, a caridade sendo entendida e vivida como movimento exterior de assistencialismo, em que raramente o coração e alma tomam parte. Mas para Kardec, a palavra caridade “tem uma acepção muito ampla”:

Há caridade em pensamentos, em palavras, em ações; não consiste apenas na esmola. Alguém é caridoso em pensamentos sendo indulgente para com as faltas do próximo; caridoso em palavras, nada dizendo que possa prejudicar a outrem; caridoso em ações quando assiste o próximo na medida de suas forças.(pág. 79)

Ainda sobre o que é a verdadeira caridade:

Quem quer que alimente contra o próximo sentimentos de ódio, de animosidade, de inveja, de rancor, falta com a caridade. A caridade é a antítese do egoísmo; a primeira é a abnegação da personalidade, o segundo é a exaltação da personalidade. Uma diz: Para vós em primeiro lugar, para mim depois; e o outro: Para mim antes, para vós se sobrar. A primeira está toda nestas palavras do Cristo: “Fazei aos outros o que quereríeis que vos fizessem.” (...) Haveremos de convir que, se todos os membros de uma sociedade agissem de conformidade com esse princípio, haveria menos decepções na vida. (pág. 79)

Assim, para Kardec, caridade não se limita a ações exteriores de assistência mas, principalmente, à transformação da alma em atitudes, pensamentos, sentimentos e palavras, visando o bem do outro, antes do nosso próprio bem.

O que é caridade? Exemplos: aplicações práticas de caridade

Temos a seguir, alguns trechos da obra Viagem espírita em 1862 que demonstram a visão kardequiana sobre a verdadeira caridade, que é a que devemos sinceramente buscar compreender e aplicar em nossas vidas.

No trecho a seguir, Kardec comenta qual seria seu posicionamento em uma situação de divergência de opiniões.

Enquanto ainda é tempo, revesti-vos, pois, da túnica branca: sufocai todas as discórdias, pois que as discórdias pertencem ao reino do mal, que vai ter fim. Que vos possais confundir todos numa mesma família e vos dar, do fundo do coração e sem pensamento premeditado, o nome de irmãos. Se, entre vós, houver dissidências, causas de antagonismo; se os grupos, que devem todos marchar para um objetivo comum, estiverem divididos, eu o lamento, sem me preocupar com as causas, sem examinar quem cometeu os primeiros erros e me coloco, sem vacilar, do lado daquele que tiver mais caridade, isto é, mais abnegação e verdadeira humildade, pois aquele a quem falta a caridade está sempre em erro, ainda que coberto de algum tipo de razão, porquanto Deus maldiz a quem diz a seu irmão: Raca.(pág. 101 e 102)

Para Kardec, a  verdadeira razão está com aquele que ama e não com quem aparenta ter uma postura correta, baseada em argumentos lógicos, mas desacompanhados de caridade. Nos versos de Racine, “Um benefício lançado em rosto vale sempre por uma ofensa” (pág. 91). Ainda sobre essa situação, Kardec coloca que, em situações de divergência, a primeira postura dos adversários pode ser resultado de um movimento do qual nem sempre se tem consciência, mas a conduta posterior é resultado da reflexão e forja o verdadeiro caráter do homem, ou seja, demonstra qual a opção feita, pela caridade ou pelo egoísmo. A medida de apreciação de Kardec, (não há essa vírgula!) seria a favor daquele que falasse menos mal do adversário, que fosse mais moderado em suas recriminações.

Outra maneira de expressão da caridade é a capacidade de perdoar. O perdão real não é aquele que se manifesta em palavras, mantendo o sentimento de mágoa no coração. Para atendermos, pois, a esse chamado da caridade, é preciso que nosso coração esteja sob constante vigilância.

Estando, pois, admitido que não se pode ser bom espírita com sentimentos de rancor no coração, eu me orgulho de contar apenas com amigos entre esses últimos, pois que, se eu tiver defeitos, eles saberão desculpá-los. (pág. 54)

E ainda:

Imperdoável! Concebeis esta palavra nos lábios de pessoas que se dizem espíritas? Tal palavra deveria ser riscada do vocabulário do Espiritismo. (pág. 61)

Kardec não quis dizer que quem ainda não consegue perdoar não é espírita, mas que todos que querem ser bons espíritas-cristãos, que intencionam ser substancialmente transformados pelo Consolador Prometido, devem se esforçar para conhecer o próprio coração e extirpar dele os maus sentimentos, como o rancor e a mágoa.

O Codificador chama a atenção ainda para o sentimento de caridade nos grupos espíritas. Ele observa, com a profundidade da alma experiente e elevada, a realidade  íntima dos integrantes mais que as aparências.

Segundo ele, as reuniões compostas exclusivamente de verdadeiros e sinceros espíritas:

(...)daqueles nos quais fala o coração, também apresentam um aspecto muito especial; todas as fisionomias refletem franqueza e cordialidade; nós nos sentimos à vontade nesses ambientes simpáticos, verdadeiros templos da fraternidade. Tanto quanto os homens, os Espíritos aí se comprazem, mostram-se mais expansivos e transmitem suas instruções íntimas. (pág. 36)

Não ocorre o mesmo nas reuniões onde há divergência de sentimentos:

Naquelas, ao contrário, em que há divergência de sentimentos, onde as intenções não são inteiramente puras, em que se nota o sorriso sardônico e desdenhoso em certos lábios, onde se sente o sopro da malquerença e do orgulho, em que se teme a cada instante pisar o pé da vaidade ferida, há sempre mal-estar, constrangimento e desconfiança. Em tais ambientes os próprios Espíritos são mais reservados e os médiuns muitas vezes paralisados pela influência dos maus fluidos, que pesam sobre eles como um manto de gelo.(pág. 36)

Objeções à possibilidade de o mundo ser transformado pela caridade

Utopia

Podemos pensar que essa mudança seja impossível, uma utopia. Perdoar e não se ter sentimentos divergentes seria algo inatingível para o homem inserido no atual estágio evolutivo da Terra, ao que Allan Kardec responde: “Se assim fosse, o que seria muito triste, é o caso de se perguntar com que objetivo o Cristo veio até nós pregar a caridade aos homens; equivaleria a pregar aos animais.” (pág. 80)

Essa aparente renitência do homem no egoísmo ocorre porque o desenvolvimento da razão e da moralidade não caminham lado a lado. Enquanto progredimos em um deles, negligenciamos o outro. Atualmente, observamos uma grande tendência em valorizar o desenvolvimento racional. Embora ele tenha trazido significativo progresso material, fez-se acompanhado de prejuízos morais. Com o tempo, por meio das encarnações e do esforço, o homem retomará o equilíbrio dessas forças.

O homem chegou a um período em que as ciências, as artes e a indústria atingiram um limite até hoje desconhecido; se os gozos que delas tira satisfazem à vida material, deixam um vazio na alma; o homem aspira a algo melhor: sonha com melhores instituições; quer a vida, a felicidade, a igualdade, a justiça para todos. (pág. 82)

Cálculo interesseiro

Sobre a reforma moral do mundo através da caridade, outra objeção pode surgir: a prática do bem seria um cálculo interesseiro. A isso Kardec responde: “Realmente, haverá maior mérito em fazer-se o bem espontaneamente, sem pensar em suas conseqüências; mas, nem todos os homens já chegaram a esse estágio, e mais vale praticar o bem com esse estimulante do que não o praticar absolutamente.” (pág. 89)

Os espíritas não praticam

Uma terceira objeção que pode ser feita é a de que os espíritas deveriam compreendê-la com maior fidelidade e dar o testemunho de sua eficácia na reforma dos homens, o que não o fazem. A isso, Kardec esclarece que:

No início das manifestações muitos as aceitaram sem lhes prever as conseqüências(...); mas quando daí saiu uma moral severa, deveres rigorosos a cumprir, muitos se sentiram sem forças para praticá-la e a ela se conformarem. Faltou-lhes coragem, devotamento, abnegação, humildade; em tais indivíduos a natureza corporal prevaleceu sobre a espiritual. Acreditaram, mas recuaram diante da execução. (pág. 91)

Assim, no início, havia espíritas que apenas acreditavam no Espiritismo; e posteriormente surgiram  aqueles que podemos denominar espíritas praticantes, nos quais a filosofia e a moral realizaram transformações efetivas.

Como se fará isto?

Sentimentos de amor e crença

É fato que a caridade tem poder para transformar desde o íntimo dos homens até a mais ampla estrutura social. Se isso não é utopia; se sua prática, mesmo por interesse, é benéfica; e se os verdadeiros espíritas estão habilitados a provar por meio de atitudes a possibilidade da transformação humana, como se dará essa mudança? Estamos diante de um problema, referente a uma mentalidade pautada no egoísmo, e de um futuro da Humanidade, no qual a caridade estará na base de tudo e de todos. Qual será o caminho que devemos percorrer para chegar a esse futuro?

Como se dará isto? Uma vez que o reino do bem é incompatível com o egoísmo, é preciso que o egoísmo seja destruído. Ora, quem o pode destruir? A predominância do sentimento do amor, que leva os homens a se tratarem como irmãos e não como inimigos. A caridade é a base, a pedra angular de todo o edifício social; sem ela o homem só construirá sobre a areia. (pág. 82)

Não será, portanto, o conhecimento espiritual apresentado pelo Espiritismo em si que nos transformará, mas os sentimentos de amor que esse conhecimento gerar em nós, em detrimento do egoísmo que trazemos conosco.

Há ainda outra questão. O que nos impulsionará na busca por esses sentimentos? Kardec isso esclarece no seguinte trecho:

Sem a caridade, não há instituição humana estável; e não pode haver caridade nem fraternidade possíveis, na verdadeira acepção da palavra, sem a crença. Aplicai-vos, pois a desenvolver esses sentimentos que, engrandecendo-se, destruirão o egoísmo que vos mata. (pág. 86)

Assim, segundo Kardec, não é possível ser realmente caridoso sem crer, sem ter fé. Enquanto, nossa compreensão de caridade estiver separada da crença em Deus e da vida espiritual eterna, ainda precisaremos caminhar para completar tal entendimento.

Crença na Vida futura - sentido para ser caridoso

Demonstramos que a incredulidade, a simples dúvida em relação ao futuro, leva o homem a se concentrar na vida presente, o que muito naturalmente desenvolve o sentimento do egoísmo. (pág. 88)

Ao contrário, se o homem concentra suas esperanças em uma vida maior, eterna, regida por leis que lhe trarão felicidade, mais buscará adequar-se aos valores dessa vida superior, daí um sentido de se esforçar para viver a caridade.

- Fé religiosa – Deus como referencial de caridade e auto-conhecimento

O Espiritismo oferece tanto aos incrédulos explicações racionais que os fazem retomar a fé que perderam, quanto aos religiosos reafirmações daquilo em que já crêem. Mais do que explicações racionais, aquele que se dedica ao estudo moral da Doutrina Espírita, encontrará fortes razões para confiar seu coração a Deus, fonte de todo o amor, único capaz de ensinar aos Seus filhos o que é a verdadeira caridade.

A verdadeira fé se conjuga à humildade; aquele que a possui deposita mais confiança em Deus do que em si próprio, por saber que, simples instrumento da vontade divina, nada pode sem Deus. Por essa razão é que os bons Espíritos lhe vêm em auxílio. (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 4).

Se vemos a Doutrina Espírita gerando poucos resultados de transformação  naqueles que a professam, isso se deve à nossa dificuldade de reconhecer as próprias limitações, e de nos entregar Àquele que pode nos proteger. Quando os espíritos dizem que nada podemos sem Deus, é porque qualquer realização espiritual que busquemos precisa que ser baseada em total entrega de nossas vidas às Mãos Divinas, únicas capazes de nos moldar para o bem.

Quando buscamos reformas espirituais, sem o sentimento de religiosidade como base, agimos como construtores imprevidentes iniciando a reforma da casa pelo telhado . Assim seremos incapazes de produzir frutos de amor para nós e para os outros,  como a figueira que secou condenada por Jesus. Segundo os espíritos, em O Evangelho segundo o Espiritismo, ela simboliza:

(…) todos aqueles que, tendo meios de ser úteis, não o são; todas as utopias, todos os sistemas ocos, todas as doutrinas carentes de base sólida. O que as mais das vezes falta é a verdadeira fé, a fé produtiva, a fé que abala as fibras do coração, a fé, numa palavra, que transporta montanhas. (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 9)

Nesse capítulo, os espíritos nos dizem que a fé é “mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus” (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.19, item 11) e ainda: “Inspiração divina, a fé desperta todos os instintos nobres que encaminham o homem para o bem. É a base da regeneração.” (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 11).

Muitos acreditam que Madre Teresa de Calcutá foi alguém que valorizou a caridade em seu aspecto estritamente material. Entretanto, vem dela o alerta da seguinte forma: "A oração faz-nos ter um coração puro. E um coração puro é capaz de ver a Deus. Se descobrirmos Deus, seremos capazes de amar, de amar não com palavras, mas com obras". E ainda:

Amem-se uns aos outros, como Jesus ama a cada um de vocês. Não tenho nada que acrescentar à mensagem que Jesus nos transmitiu. Para poder amar, é preciso ter um coração puro e é preciso rezar. O fruto da oração é o aprofundamento da fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o serviço ao próximo. Isso nos conduz à paz. (Tudo Começa com a Prece, Editora Teosófica, Madre Teresa de Calcutá)

Não estamos nos referindo a uma fé sem obras, mas a atitudes de mais valor por serem baseadas no sentimento do amor Divino. Para compreendermos melhor como o sentimento vivo em nós do amor de Deus pode gerar caridade real, leiamos a “Parábola do Devedor Implacável” contada por Jesus no Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículos 23 a 35:

Por isso, o Reino dos Céus é semelhante a um homem rei que quis ajustar contas com os seus servos. Ao começar a ajustar as contas, foi  trazido a ele um devedor de dez mil talentos . Não tendo ele com que pagar , o senhor ordenou que fossem vendidos ele, a mulher, as crianças, e tudo quanto tinha, para que fosse pago. Então, prosternando-se, o servo o reverenciava, dizendo: Sê longânime para comigo, e tudo te pagarei. O senhor daquele servo, compadecendo-se, liberou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um de seus conservos, que lhe devia cem denários e, agarrando-o, o estrangulava, dizendo: Paga, se algo me deves. Assim, prosternando-se, o seu conservo rogava-lhe, dizendo: Sê longânime para comigo, e te pagarei. Ele, porém, não queria; mas saiu e lançou-o na prisão, até que pagasse o que estava devendo. Vendo, pois os seus conservos o que acontecera, entristeceram-se muito, e vieram relatar ao seu senhor tudo o que acontecera. Então, o seu senhor, convocando-o, disse-lhe: Servo mau, perdoei-te toda aquela dívida, quando me rogaste. Não devias tu, igualmente, ter misericórdia do teu conservo, como eu também tive misericórdia de ti? E, irando-se, o seu senhor o entregou aos carcereiros até que pagasse tudo o que estava devendo. Assim vos fará meu Pai que está nos céus, se não perdoardes, de coração, cada um ao seu irmão. (O Novo Testamento, Tradução de Haroldo Dutra Dias)

Nessa parábola, vemos que o servo apesar de ser perdoado, não sentiu esse  perdão. Assim, condenou aquele que lhe devia muito menos. Nos coloquemos no lugar do devedor: por não sermos perfeitos, somos perdoados a todo momento por Deus. Quanto maiores as nossas imperfeições, maior é o perdão de Deus para conosco, sem mencionarmos o nosso passado reencarnatório. Mas se não nos sentimos devedores de um Pai que nos ama incondicionalmente, teremos facilidade em julgar, condenar, maldizer e deixar de fazer o bem ao nosso próximo.

Imaginemos que, em algum momento, nos sintamos enormes devedores da Bondade Divina e que Deus, por nos amar incondicionalmente, não nos condena, mas nos oferece sempre a oportunidade da renovação. Nesse caso, será mais difícil olharmos para os outros com condenação, uma vez que nos sentiremos devedores perdoados. Assim, se não temos esse relacionamento de fé com nosso Pai, não compreenderem os compreendermos o Amor Incondicional e não sentiremos isso pelos outros. Por outro lado, se nos sentirmos amados, mesmo cheios de defeitos, teremos mais compreensão e tolerância para oferecer a todos. Por isso, a fé é a base de qualquer transformação moral que queiramos realizar em nós, afinal ela remove montanhas (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 2):

As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má-vontade, (...). Os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem se vençam os obstáculos, assim nas pequenas coisas, que nas grandes. (Evangelho Segundo o Espiritismo, 19, item 2).

É movido pela fé ardente que o espírita sincero transformará sua vida e, por conseqüência, o seu entorno (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 11):

O homem de bem que, crente em seu futuro celeste, deseja encher de belas e nobres ações a sua existência, haure na sua fé, na certeza da felicidade que o espera, a força necessária, e ainda aí se operam milagres de caridade, de devotamento e de abnegação. Enfim, com a fé, não há maus pendores que se não chegue a vencer.

Em outra passagem, no Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículos 1 a 5, Jesus afirma que para entrar no Reino dos Céus precisamos nos fazer como crianças. Ele diz ainda: “Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus” (Mt, 18: 4). Nesse trecho, Jesus ressalta não só a importância da pureza no caminho espiritual, mas também a da humildade. A criança pequena é dependente dos pais. Para tudo precisa de suas orientações. Uma vez que somos apenas crianças na aquisição das virtudes cristãs, é preciso nos reconhecermos dependentes de nosso Mestre Jesus, Caminho, Verdade e Vida, para que Ele nos oriente e  ensine a amar verdadeiramente. É assim, acreditamos, que as crenças no Espiritismo poderão transformar substancialmente nossas vidas. Não serão crenças puramente intelectuais, mas sim aquelas que aumentarão nossa fé e entrega a Deus e às Suas Leis, que por fim, serão gravadas a caracteres de luz em nossos corações.

A transformação realizada

E para terminar, o convite de Kardec, o grande apóstolo da fé:

Vossos adversários poderão rir de vossas crenças nos Espíritos e em suas manifestações, mas não rirão das qualidades que dão essas crenças; não rirão quando virem inimigos se perdoando, em vez de se odiarem, a paz renascer entre parentes que se dividiam, o incrédulo de outrora fazendo preces, o homem violento e colérico mostrando-se brando e pacífico, o debochado se transformando em bom pai de família, o orgulhoso que se tornou humilde, o egoísta praticando a caridade; não rirão quando perceberem que já não têm a temer a vingança de seus inimigos que se tornaram espíritas; o rico não rirá quando verificar que o pobre não mais invejará sua fortuna e o pobre bendirá o rico que se tornou mais humano e mais generoso, em vez de ter ciúme dele; os chefes não rirão mais de seus subordinados e não os molestarão mais quando constatarem que se fizeram mais escrupulosos e mais conscienciosos no cumprimento de seus deveres. Enfim, os patrões encorajarão seus servidores e administradores, quando os virem, sob o império da fé espírita, mais fiéis, mais devotados e mais sinceros. (pág. 98)

Espíritas! Sois os pioneiros dessa grande obra; tornai-vos dignos da gloriosa missão, cujos primeiros frutos já recolheis. Pregai por palavras, mas, sobretudo, pregai pelo exemplo; fazei que, em se vos vendo, não possam dizer que as máximas que ensinais são palavras vãs em vossa boca. A exemplo dos apóstolos, fazei milagres, pois Deus vos concedeu o dom. Não milagres para ferir os sentidos, mas milagres de caridade e de amor. Sede bons para com os vossos irmãos, sede bons para com todo mundo, sede bons para com os vossos inimigos! A exemplo dos apóstolos, expulsai os demônios, já que tendes poder para tanto, pois eles pululam em torno de vós: são os demônios do orgulho, da ambição, da inveja, do ciúme, da cupidez, da sensualidade, que insuflam todas as más paixões e semeiam por entre vós os pomos da discórdia. Expulsai-os de vossos corações, a fim de que tenhais a força necessária para expulsá-los dos corações alheios. Fazei esses milagres e Deus vos abençoará e as gerações futuras vos bendirão, como as de agora abençoam os primeiros cristãos, muitos dos quais revivem entre vós para assistir e concorrer ao coroamento da obra do Cristo. Fazei esses milagres e vossos nomes serão inscritos gloriosamente nos anais do Espiritismo. Não ofusqueis esse brilho por sentimentos e atos indignos de verdadeiros espíritas, de espíritas cristãos. Despojai-vos, o quanto antes, de tudo quanto possa ainda restar em vós do velho levedo. (pág. 96)

Obras utilizadas nesse estudo:

- Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec;

- O Novo Testamento, Conselho Espírita Internacional, tradução Haroldo Dutra Dias;

- Tudo Começa com a Prece, Editora Teosófica, Madre Teresa de Calcutá

- Viagem Espírita em 1862, FEB, Allan Kardec.