ALLAN KARDEC, O APÓSTOLO DO ESPIRITISMO E O RETORNO ÀS ORÍGENS

Apesar de ter sua história observada e contada desde os primórdios do Espiritismo, Allan Kardec tem sido levado por alguns à conta de um aristocrata extremamente racional e frio, que resolveu estudar os fenômenos espirituais de forma estritamente científica e apenas se relacionava com intelectuais que o pudessem “compreender”. Por outros é visto como um francês excêntrico que pretendeu fundar uma nova religião, o Kardecismo. Poucos entendem a sua missão apostolar de retirar os escombros dogmáticos despejados sobre os tesouros essenciais do Cristianismo, fazendo reviver a verdadeira fé, trazendo esperança aos desalentados do mundo e iluminando as consciências para o caminho de Deus.

Para desconstruir essa visão distorcida em relação ao professor lionês, é preciso prestar atenção nas fontes originais que mostram sua vivência, suas aspirações, suas atitudes, bem como nas revelações posteriores que trazem à luz do conhecimento episódios da vida do codificador que não foram revelados por ele.

Para aqueles que vêem um Kardec impassível, sem sentimentos e unicamente disposto a implantar a fé raciocinada a qualquer custo, opõe-se o seguinte trecho da obra O Espírito de Verdade, que mostra a sua reação após ler uma carta na qual Joseph Perrier, jovem extremamente desalentado devido à perda da esposa, informa ter sido salvo do auto-extermínio através da leitura de O Livro dos Espíritos:

Após a leitura da carta providencial, o Professor Rivail experimentou nova luz a banhá-lo por dentro…

Conchegando o livro [dos Espíritos] ao peito, raciocinava, não mais em termos de desânimo ou sofrimento, mas sim na pauta de radiosa esperança.

Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas…

Diante de seu espírito turbilhonava o mundo necessitado de renovação e consolo.

Allan Kardec levantou-se da velha poltrona, abriu a janela à sua frente, contemplando a via pública, onde passavam operários e mulheres do povo, crianças e velhinhos…

O notável obreiro da Grande Revelação respirou a longos haustos, e, antes de retomar a caneta para o serviço costumeiro, levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima… (O Espírito de Verdade, Cap. 52, Há um Século, Hilário Silva/Waldo Vieira)

Para os que vêem no Codificador um aristocrata que só vivia em meios intelectuais, fazendo acepção de pessoas, redargüi-se com o seguinte trecho da carta escrita por Kardec como resposta ao convite dos espíritas de Lyon e Bordeaux para uma visita:

Ainda uma palavra, meus amigos. Indo ver-vos, uma coisa desejo: é que não haja banquete, e isto por vários motivos. Não quero que minha visita seja ocasião para despesas que poderiam impedir a presença de alguns e privar-me do prazer de ver todos reunidos. Os tempos são difíceis; importa, pois, não fazer despesas inúteis. O dinheiro que isto custaria será mais bem empregado em auxílio aos que, mais tarde, dele necessitarão. Eu vo-lo digo com toda sinceridade: o pensamento naquilo que fizerdes por mim em tal circunstância poderia ser uma causa de privação para muitos e me tiraria todo o prazer da reunião. Não vou a Lyon a fim de me exibir, nem para receber homenagens, mas para conversar convosco, consolar os aflitos, encorajar os fracos, ajudar-vos com os meus conselhos naquilo que estiver em meu poder fazê-lo. E o que de mais agradável me podeis oferecer é o espetáculo de uma união boa, franca e sólida. Crede que os termos tão afetuosos do vosso convite para mim valem mais que todos os banquetes do mundo, ainda que fossem oferecidos num palácio.(...) (Viagem Espírita em 1862 e Outras Viagens de Kardec, Resposta de Kardec aos Espíritas de Lyon e Bordeaux, FEB, pp. 18 e 19, Allan Kardec)

 Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em uma família muito respeitada, tradicionalmente vinculada à magistratura e à advocacia. Tendo se sentido atraído desde cedo para a ciência e para a filosofia, completou seus estudos em Yverdum, Suíça, com o célebre Johann Heinrich Pestalozzi de quem se tornou um dos mais eminentes discípulos. Poliglota, falava corretamente o alemão, o italiano, o inglês, o espanhol e o holandês. Era bacharel em Letras e em Ciências, bem como doutor em Medicina. Traduzia obras inglesas e alemãs, além de escrever gramáticas, aritméticas, livros para estudos pedagógicos superiores, dentre os quais Plano Apresentado Para o Melhoramento da Instrução Pública(1828), Curso Prático e Teórico de Aritmética(1829), Gramática Francesa Clássica(1831), Manual dos Exames Para Obtenção dos Diplomas de Capacidade, soluções racionais das questões e problemas de aritmética e geometria(1846), Compêndio Gramatical da Língua Francesa(1848), Ditados Normais dos Exames na Municipalidade e na Sorbonne(1849), eDitados Especiais Sobre as Dificuldades Ortográficas(1849), todas adotadas pela Universidade de França e vendidas abundantemente[1].

Não é de se duvidar que, possuidor de uma genialidade tal e de uma enorme capacidade para o trabalho, além de já ter sido favorecido por um “bom nascimento”, o professor Rivail poderia ter obtido inimaginável sucesso profissional e financeiro, “mas a sua missão o atraía a uma tarefa mais onerosa, a uma obra maior(...)”(Henri Sausse – 1896), o que o mestre de Lyon não seguiu sem antes abrir mão de todas as honras, tranqüilidade e felicidade propriamente humanas a que fazia jus por toda a sua capacidade e esforços através das décadas.

Muitas foram as dificuldades materiais do Codificador a partir de então. Muitas vezes retirou do seu próprio bolso as quantias necessárias para o sucesso das publicações espíritas que empreendeu. Trabalhava quase sem repouso e se alimentando insuficientemente, sempre preocupado em consolar os aflitos, encorajar os fracos, transformar a sociedade para a conquista da real felicidade.

A despeito da formação cultural posterior à sua partida da vida carnal, Allan Kardec não foi o fundador de uma religião nova, mas o organizador de um repositório de riquezas espirituais renovadoras de qualquer personalidade, estreitamente ligado ao Cristianismo (é o Consolador prometido por Jesus), como se depreende de suas afirmações em O Que é o Espiritismo:

O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, não cogita de questões dogmáticas. Esta ciência tem conseqüências morais como todas as ciências filosóficas; (...).

(...)

Mais bem observado depois que se vulgarizou, o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião; e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas.

Ele repousa, por conseguinte, em princípios independentes das questões dogmáticas. Suas conseqüências morais são todas no sentido do Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura; razão pela qual, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. (...)”(O Que é o Espiritismo, Cap. 1, 3º Diálogo, Questão 7, Allan Kardec)

Longe de querer criar mais um secto religioso focado em particularismos, Allan Kardec foi uma personificação do universalismo. Exatamente por se deter no Cristianismo, código moral da Humanidade por excelência, soube unir as diferenças em torno de um ideal comum: a ciência filosófica com conseqüências morais, chamada Espiritismo que, como qualquer outra ciência, deve servir para todas as pessoas, independente de culto, classe social, etnia ou sexo, por revelar Leis Universais Imutáveis. Assim como ninguém despreza a Medicina, por ser seu objeto, a saúde humana, independente de diferenças externas, não se deve também desprezar o Espiritismo Cristão[2], arqueologia espiritual que veio resgatar a pureza do cristianismo primitivo secularmente soterrada pelos particularismos dogmáticos. Ninguém deixa de usufruir os benefícios das Ciências Médicas por ser católico ou protestante, rico ou pobre, negro, branco ou oriental. Assim também ninguém deve deixar de usufruir os benefícios da Ciência Espírita que veio trazer a Ciência Médica das almas.

Para essa importante missão foi enviado pelo Cristo o grande missionário educador, o professor Rivail, capaz de perceber as diferenças entre seus discípulos e aceitá-las, os diferentes contextos e circunstâncias para melhor orientar. Podemos perceber que enquanto permanecia em Paris, com seus turbilhões intelectuais, suas grandes movimentações acadêmicas, Allan Kardec prezava muito mais pela racionalidade de suas observações, mas quando visitava Lyon, cidade reconhecida pelo valor dado às coisas do coração, o Codificador, sem fechar os olhos e sem perder sua lógica natural e irretorqüível, dava curso à sua intensa sensibilidade, demonstrando positivamente seu amor pelas criaturas de Deus, suas irmãs[3].

Existe uma palavra que caracteriza perfeitamente o querido professor: apóstolo. No capítulo 57 de Fonte Viva, Emmanuel descreve um apóstolo e suas afirmações resumem o que foi a vida e a personalidade de Allan Kardec:

O apóstolo é o educador por excelência. Nele residem a improvisação de trabalho e o sacrifício de si mesmo para que a mente dos discípulos se transforme e se ilumine, rumo à esfera superior.

(...)

Os apóstolos, (...), são os condutores do Espírito.

Em todas as grandes causas da Humanidade, são instituições vivas do exemplo revelador, respirando no mundo das causas e dos efeitos, oferecendo em si mesmos a essência do que ensinam, a verdade que demonstram e a claridade que acendem ao redor dos outros. Interferem na elaboração dos pensamentos dos sábios e dos ignorantes, dos ricos e dos pobres, dos grandes e dos humildes, renovando-lhes o modo de crer e de ser, a fim de que o mundo se engrandeça e se santifique. Neles surge a equação dos fatos e das idéias, de que se constituem pioneiros ou defensores, através da doação total de si próprios a benefício de todos. Por isso, passam na Terra trabalhando e lutando, sofrendo e crescendo sem descanso, com etapas numerosas pelas cruzes da incompreensão e da dor. Representando, em si, o fermento espiritual que leveda a massa do progresso e do aprimoramento, transitam no mundo, conforme a definição de Paulo de Tarso, como se estivessem colocados pela Providência Divina nos últimos lugares da experiência humana, à maneira de condenados a incessante sofrimento, pois neles estão condensadas a demonstração positiva do bem para o mundo, a possibilidade de atuação para os Espíritos Superiores e a fonte de benefícios imperecíveis para a Humanidade inteira.(Fonte Viva, Capítulo 57, Apóstolos, Emmanuel/Chico Xavier)

De posse de grande conteúdo doutrinário enviado pelos Espíritos Superiores através da Codificação, corremos o grande risco de nos entregar às interpretações particularistas das verdades espirituais, o que pode ser muito perigoso em nossa condição de espíritos profundamente devedores, ou poderemos aproveitar a ótica apostolar de Allan Kardec. Com essa nova visão do Apóstolo do Espiritismo, percebemos a necessidade de retorno aos seus ensinamentos nas origens do Consolador. Suas aspirações, seu entendimento e, sobretudo, seu exemplo são os melhores norteadores da nossa conduta ao abordar a Doutrina Espírita. Não há que se falar em “visão ultrapassada” de Kardec para justificar inovações descabidas. Sua vida, sua missão e suas palavras foram essencialmente morais e a moralidade é imutável.

No capítulo “Prefácio do Tradutor” (Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim), Wallace Rodrigues faz uma comparação muito interessante entre o Espiritismo nascente e o Cristianismo Primitivo. Ele diz que, quando a História do Espiritismo for integralmente escrita “nos impressionaremos com o capítulo dos que se dispuseram a sair pelo mundo, a enfrentar a enigmática substância das platéias, para transmitir a doutrina dos Espíritos, ainda que ao preço de danos morais e físicos. A esse capítulo se intitulará, talvez, os Atos dos Espíritas, parafraseando, por um simples impulso de descobrir o futuro no passado, os Atos dos Apóstolos.”(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, Prefácio do Tradutor, p. 13). E completa posteriormente:

“(...) e é o próprio Codificador, lúcido e desperto, que se encarrega de iniciar a divulgação das verdades espíritas através das tribunas. Em seguida a ele, em perfeita coordenação, surgirá Léon Denis. Em um como em outro, e tal como sucede ainda em nossos dias, a preocupação se converge para uma ética que, em sendo, até certo ponto, patrimônio das mais antigas culturas, era, praticamente, apenas letra que mata; agora vai ser espírito que vivifica, subversiva no sentido de arremeter do exterior para o interior, da teoria para a ação. Seu caráter renovador torna-a evangelicamente desmistificada e autenticamente apostolar, o que nos leva a estabelecer a comparação com o livro dos Atos, essa crônica de viagem, durante a qual os inúmeros personagens têm, o tempo todo, os lábios entreabertos, como que preparados para traduzir em palavras o pensamento da Boa Nova, em especulações sobre ações passadas e presentes, que se acumulam em seus espíritos com a força do rio comprimido contra as paredes de uma barragem. Esta Viagem Espírita de 1862 é qualquer coisa de semelhante e assim Allan Kardec nela se comporta. (...)”(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, Prefácio do Tradutor, p. 14).

O Espiritismo não veio ao mundo como o Consolador prometido por Jesus para ser apenas uma teoria cuja simples apreensão intelectual bastasse por si mesma. Sendo a lembrança e o complemento do Cristianismo no campo do entendimento[4], veio, assim como o movimento cristão dos primeiros tempos, para adequar moralmente as pessoas e a sociedade aos preceitos pregados e exemplificados por Jesus. É o que se depreende das seguintes palavras do Codificador:

Mas, o que é característico, é a evidente diminuição dos médiuns de efeitos físicos, à medida que se multiplicam os médiuns de comunicações inteligentes. É que, como os Espíritos o afirmam, a fase da curiosidade passou e já vivemos um segundo período, o da filosofia. O terceiro, que começará em pouco, será o de sua aplicação à reforma da Humanidade. (Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 29).

Para que essa transformação aconteça, no entanto, faz-se necessária uma desconstrução. Cristianismo é edificação espiritual no íntimo da criatura e não pode compartilhar esse “espaço espiritual” com o materialismo e a incredulidade. Jesus já havia dito que não se pode servir a Deus e a Mamóm[5]! O problema é que a crença no nada (materialismo) veio, ao longo do tempo e por algumas razões, conquistando um grande terreno no seio da sociedade terrestre. Kardec nos explica o porquê:

“Por que, então, o materialismo tende a suplantar a fé? Acaso por que, até o presente, a fé não raciocina? Por que ela diz: Crede! enquanto o materialismo raciocina? Estes são sofismas, convenho, porém, boas ou más, são razões que, ao ver de muitos, levam vantagem sobre aquelas que nada oferecem. Acrescentai a isto que o materialismo satisfaz àqueles que se comprazem na vida material, que querem se distrair das conseqüências do futuro, que esperam, assim, escapar a responsabilidade de seus atos, tendo-se em vista que, em suma, ele é eminentemente favorável à satisfação de todos os apetites brutais. Na incerteza do futuro, o homem se diz: Aproveitemos o presente. Que benefício me trazem os meus semelhantes? Por que me sacrificar por eles? São meus irmãos, diz-se. Mas, de que me servem irmãos que eu perderei para sempre, que amanhã estarão mortos, como eu próprio?” (Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 59)

Essa conquista de terreno pela “crença no nada” foi prevista por Kardec juntamente com sua principal conseqüência, o egoísmo, que coloca a Humanidade em grande risco e demonstra, ao contrário do que desejam alguns intelectuais, a irracionalidade do materialismo e da incredulidade:

“(...) O egoísmo é a conseqüência natural de uma posição como essa.De acordo com o egoísmo, cada um tira o melhor para si, mas essa parte melhor é sempre o mais forte que a leva. O fraco, por sua vez raciocinará: Sejamos egoístas, uma vez que os outros também o são. Pensemos apenas em nós, pois que os outros só pensam em si mesmos.

Tal é, convenhamos, o mal que tende a invadir a sociedade moderna e esse mal, como um verme roedor, pode arruiná-la em seus fundamentos.(...).”(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 60)

Foi, pois, para dar ao homem a fé no futuro, justificando insofismavelmente sua necessidade e seu total interesse em praticar as virtudes cristãs, que o Espiritismo veio ao mundo apoiado nos fatos e na razão. Aquilo de que nos apropriamos para justificar o nosso positivismo extremista (os fatos espíritas) e para combater religiões como se a fé cega fosse mais uma questão de abordagem religiosa do que de ignorância moral (a razão), nada mais foi do que o recurso indispensável para a satisfação de necessidades e aspirações da sociedade moderna no sentido de sua transformação moral. Diz Kardec:

Sente-se o vazio moral que a incredulidade e o materialismo criam em torno do homem; compreende-se que essas doutrinas cavam um abismo para a sociedade; que destroem os laços mais sólidos: os da fraternidade. E, depois, instintivamente, o homem tem horror ao nada, como a natureza tem horror ao vazio. Eis porque ele acolhe com alegria a prova de que o nada não existe.

Mas, dir-se-á, não se lhe ensinou, todos os dias, que o nada não existe? Sem dúvida, isso lhe foi ensinado! Mas, então, como entender que a incredulidade e a indiferença tenham incessantemente crescido neste último século?

É que as provas oferecidas não satisfazem mais, hoje em dia, pois não respondem às necessidades de sua inteligência. O progresso científico e industrial tornou o homem positivo. Quer se dar conta de tudo. Quer saber o porque e o como de cada coisa. Compreender para crer se tornou uma necessidade imperiosa. Eis o motivo pelo qual a fé cega já não possui domínio sobre ele. E isso, para uns, é um mal, para outros, um bem. Sem desejar discutir a questão, diremos apenas que assim é a lei da natureza. A humanidade coletivamente, como os indivíduos, tem sua infância e sua idade madura.

(...)

Atacar o mérito da fé cega, dir-se-á, é uma impiedade, pois que Deus quer que se aceite sua palavra sem exame. A fé cega teve sua razão de ser, direi mesmo, a sua necessidade, mas em um certo período na história da humanidade. Se hoje ela não basta mais para fortalecer a crença, é porque está na natureza da humanidade que assim deve ser. Ora, quem fez as leis da natureza? Deus ou Satã? Se foi Deus, não haverá impiedade em seguir-se suas leis. Se, na atualidade, compreender para crer se tornou uma necessidade para a inteligência, como beber e comer é uma necessidade para o estômago, é que Deus quer que o homem faça uso de sua inteligência: de outro modo não tê-la-ia dado.(...).

(...)

É nesse momento que chega o Espiritismo, como uma âncora salvadora, como um archote aceso nas trevas de sua alma. Vem tirá-lo da dúvida, vem preencher o horror do vazio, não com uma esperança vaga, porém com provas irrecusáveis, resultantes da observação dos fatos. Vem reanimar sua fé, não apenas dizendo: Crede, pois isso vos ordeno! mas: Vede, tocai, compreendei e crede! Ele não poderia, pois, chegar em momento mais oportuno, seja para deter o mal, antes que se torne incurável, seja para satisfazer as necessidades do homem, que já não crê sob palavra, que aspira racionalizar aquilo em que crê. O materialismo o seduzira por seus falsos raciocínios; aos seus sofismas era preciso opor raciocínios sólidos, apoiados em provas materiais.Para essa luta, a fé cega já se mostrava impotente. Eis porque digo que o Espiritismo veio a seu tempo.

O que falta ao homem é, pois, a fé no futuro!(...).(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, pp. 58, 59 e 60)

Segundo o apóstolo Pedro, os dizeres, pensamentos e atos de Jesus são “palavras de vida eterna”. Fé no futuro é fé naquilo que é eterno, duradouro, na vida espiritual e, por isso mesmo, no Cristo, pois nas palavras do amado professor Rivail:

“O materialismo ameaçava fazer a sociedade mergulhar em trevas, afirmando aos homens: ‘O presente é tudo o futuro não existe’.

O Espiritismo corrige a distorção afirmando: ‘O presente é bem pouco, mas o futuro é tudo. E isto ele o prova’.

(...)

(...).Por que ele agrada? É muito fácil explicar.

Ele agrada:

1.° — porque satisfaz à aspiração instintiva do homem em relação ao futuro;

2.° — porque apresenta o futuro sob um aspecto que a razão pode admitir;

3.° — porque a certeza da vida futura faz com que o homem enfrente com paciência as misérias da vida presente;

4.° — porque, com a doutrina da pluralidade das existências, essas misérias revelam uma razão de ser, tornam-se explicáveis e, ao invés de ser atribuídas à Providência, em forma de acusação,passam a ser justificáveis, compreensíveis e aceitas sem revolta;

5.° — porque é um motivo de felicidade saber que os seres que amamos não estão perdidos para sempre, que os encontraremos e que estão constantemente junto de nós;

6.° — porque as orientações dadas pelos Espíritos são de molde a tornar os homens melhores em suas relações recíprocas; (...)” (Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 62)         

As palavras do espírito Emmanuel através da psicografia de Francisco Cândido Xavier na obra Fonte Viva ajudam bastante a entender a fé no futuro:

“(...)

Ah! se o homem reparasse a brevidade dos dias de que dispõe na Terra! Se visse a exigüidade dos recursos com que pode contar no vaso de carne em que se movimenta!.

Certamente, semelhante percepção, diante da eternidade, dar-lhe-ia novo conceito da bendita oportunidade, preciosa e rápida, que lhe foi concedida no mundo.

Tudo favorece ou aflige a criatura terrestre, simplesmente por um pouco de tempo.

Muita gente, contudo, vale-se dessa pequenina fração de horas para complicar-se por muitos anos.

É indispensável fixar o cérebro e o coração no exemplo de quantos souberam glorificar a romagem apressada no caminho comum.

(...)

Meu amigo, onde estiveres, lembra-te de que aí permaneces “por um pouco” de tempo. Modera-te na alegria e conforma-te na tristeza, trabalhando sem cessar, na extensão do bem, porque é na demonstração do “pouco” que caminharás para o “muito” de felicidade ou de sofrimento.(Fonte Viva, Capítulo 42, Por Um Pouco)

Tudo isso explica satisfatoriamente a racionalidade kardequiana por dar a ela um objetivo superior: o de demonstrar a uma sociedade racionalista a importância da fé, do sentimento religioso, da busca pela aquisição de valores morais superiores. Assim como existem diversas línguas e, para haver comunicação satisfatória, é necessário que os interlocutores falem o mesmo idioma, sobretudo se uma das partes souber apenas um, existem, por assim dizer, línguas culturais. Por esse motivo Paulo de Tarso se fez gentio para conversar com os gentios. Por sua vez, para se fazer entendido por uma sociedade ultra-racionalista, Allan Kardec necessitou usar a linguagem racional. No entanto, assim como o Apóstolo dos Gentios não estava, com aquela atitude, endossando o modo de vida pagão, mas tentando convencer os pagãos a aderir ao modo de vida cristão, o Apóstolo do Espiritismo não estava pregando o racionalismo com suas realizações propriamente humanas, senão lançando mão de um recurso contingencial como ferramenta para atingir seu real objetivo nos passos do Cristo: a construção do Reino de Deus, que não se atinge com excessos racionais e carência sentimental, com exageros de teoria e ausência de prática essencial. Alerta o codificador:

Entre os que adotam as idéias espíritas há, como bem sabeis, três categorias bem distintas:

1.° — Os que crêem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações mas que deles não deduzem qualquer conseqüência moral;

2.° — Os que percebem o alcance moral, mas o aplicam aos outros e não a si mesmos;

3.° — Os que aceitam pessoalmente todas as conseqüências da doutrina e que praticam ou se esforçam por praticar sua moral. Estes, vós bem o sabeis, são os espíritas praticantes, os verdadeiros espíritas. Esta distinção é importante, pois que bem explica as anomalias aparentes. Sem isso seria difícil compreendermos as atitudes de determinadas pessoas. Ora, o que preceitua essa moral? Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos; retribui o bem ao mal; não tenhais ira, nem rancor, nem animosidade, nem inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os outros. Tais devem ser os sentimentos do verdadeiro espírita, daquele que se atem ao fundo e não à forma, do que coloca o espírito acima da matéria. Este pode ter inimigos, mas não é inimigo de ninguém, pois que não deseja o mal a quem quer que seja e, com maiores razões, não procura fazer o mal a ninguém. (Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 44)

 Ele diz ainda que:

 “já é muito, sem dúvida, crer, mas a crença apenas não é suficiente, se ela não oferece resultados e isso, infelizmente, tem ocorrido em muitos casos. Faço referência àqueles para os quais o Espiritismo não passa de um fato, de uma bela teoria, uma letra morta que não produz, na estrutura íntima dessas pessoas, nenhuma transformação, nem em seu caráter, nem em seus hábitos.(...)”(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 32)

E completa revelando sua visão daquilo que esperava do chamado “movimento espírita”:

“(...). Mas, ao lado dos espíritas simplesmente crentes ou simpáticos à idéia, há os espíritas de coração, e nós nos confessamos felizes por havermos deparado com eles em grande número. Vimos transformações que poderiam ser rotuladas de miraculosas, recolhemos admiráveis exemplos de zelo, de abnegação e de devotamento, numerosos casos de caridade verdadeiramente evangélica que poderíamos, com justiça, denominar: Os belos traços do Espiritismo.(Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 32)

Geralmente, quando um desenho artístico é feito, inicia-se o trabalho pelos traços. É o que chamamos esboço. No momento em que Allan Kardec profere estas palavras, já haviam sido publicados O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, além de vários números da Revista Espírita, Isso quer dizer que o corpo doutrinário do Espiritismo já estava bastante desenvolvido. Esboçava-se, no entanto, naquele momento, a vivência espírita-cristã e o Apóstolo-Codificador nos diz que, desse esboço, os mais belos traços eram as transformações morais, os exemplos de zelo, abnegação, devotamento e caridade, indicando sob quais bases os espíritas deveriam continuar “desenhando”. Por isso escreve aos espíritas de Lyon e Bordeaux:

 “Sinto-me feliz, meus amigos, por haver tantos grupos unidos no mesmo sentimento, marchando de comum acordo para o nobre objetivo a que nos propomos. Sendo tal objetivo o mesmo para todos, não poderia haver divisões; uma mesma bandeira deve guiar-vos e nela está escrito: Fora da Caridade não Há Salvação. Ficai certos de que em torno dela é que a Humanidade inteira sentirá necessidade de se congregar, quando se cansar das lutas engendradas pelo orgulho, pela inveja e pela cupidez. (...). Que, doravante, ela seja a palavra de união entre todos os homens sinceros, que querem o bem, sem segunda intenção pessoal. Mas fazei melhor ainda: gravai-a em vossos corações e, desde já, fruireis a calma e a serenidade que aí encontrarão as gerações futuras, quando ela for a base das relações sociais. Sois a vanguarda; deveis dar exemplo, a fim de encorajar os outros a vos seguirem. (Viagem Espírita de 1862 e Outras Viagens de Kardec, “Resposta de Kardec aos Espíritas de Lyon e Bordeaux”, FEB, p. 17, Allan Kardec)

O grande problema a ser resolvido, pois, não é o da disseminação dos conhecimentos espíritas, pois isso é algo que acontece naturalmente. “(...)o Espiritismo é uma idéia e quando uma idéia caminha, ela derruba todas as barreiras; não se pode detê-la nas fronteiras, como um pacote de mercadoria. Queimam-se livros, mas não se queimam idéias, e suas próprias cinzas, levadas pelo vento, fazem fecundar a terra onde ela deve frutificar.”[6], lembra Kardec. Não se pode impedir as pessoas de freqüentarem os centros espíritas ou de entrar em contato com a filosofia espiritista. No entanto, a posse de conhecimentos espirituais ou a freqüência a uma instituição não as imunizam contra as distrações impostas pelos hábitos materialistas.  “(...)o materialismo satisfaz àqueles que se comprazem na vida material, que querem se distrair das conseqüências do futuro(...)”[7]. E uma das “melhores” formas de se distrair em focar-se em dogmas, em verdades que, sem serem as principais, são tidas à conta de essenciais. Nesse sentido, reencarnação, mediunidade, pluralidade dos mundos habitados e outras verdades podem se tornar dogmáticas se, acessórias que são, assim como a racionalidade, forem tomadas como principais. São realidades importantes e que ajudam muito na compreensão dos diversos problemas da existência, mas nem sempre necessárias à transformação das pessoas. Como no caso do Evangelho, o foco deve ser dado naquilo que é inqüestionável. Nas palavras do professor Rivail na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva.(...)”. Aí está o caráter universalista do Espiritismo: a explicação e revivência da moralidade cristã e não a imposição de dogmas que só servem para um grupo específico. Se os espíritas quiserem contribuir com toda a humanidade em sua transformação, esta compreensão deverá prevalecer.

Obras utilizadas nesse estudo:

- Fonte Viva, Capítulo 42, Por Um Pouco, Emmanuel/Chico Xavier;

- Fonte Viva, Capítulo 57, Apóstolos, FEB, Emmanuel/Chico Xavier;

- O Espírito de Verdade, Cap. 52, Há um Século, Hilário Silva/Waldo Vieira;

- O Evangelho Segundo o Espiritismo, FEB, Allan Kardec;

- O Que é o Espiritismo, biografia de Allan Kardec por Henri Sausse, FEB, Allan Kardec;

- O Que é o Espiritismo, Cap. 1, 3º Diálogo, Questão 7, FEB, Allan Kardec;

- Viagem Espírita de 1862 e Outras Viagens de Kardec, Resposta de Kardec aos Espíritas de Lyon e Bordeaux, FEB, Allan Kardec;

- Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, Allan Kardec.

[1]       Biografia de Allan Kardec, por Henri Sausse, Lyon, 1896

[2]     Redundância que fomos obrigados a adotar por questões didáticas para acabar com os enganos culturais construídos sobre o Consolador.

[3]     Rodrigues, Wallace, Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, Prefácio do Tradutor, p. 16

[4]     “Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome,ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” João 14;26

[5]       “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer um e amar outro; ou há de acomodar-se a este e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às riquezas.”  Mateus 6;24

[6]       Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 57

[7]     Viagem Espírita em 1862, Ed. O Clarim, p. 59