A verdadeira fé cristã

Acreditamos que este é um dos temas mais importantes da obra Paulo e Estêvão. Percebemos isso logo no início da leitura, no Prefácio de Emmanuel, em que ele justifica seu esforço de escrever mais uma obra sobre a história de vida já tão explorada do convertido de Damasco. Emmanuel afirma que não tem como objetivo prestar homenagens ao Apóstolo dos gentios, já que “ele não precisa das nossas mesquinhas homenagens”. Não tem ainda o intuito de levantar uma biografia romanceada, nem de rememorar passagens sublimes dos tempos apostólicos. Emmanuel afirma, sim, ter como objetivo transferir ao papel humano...

alguma coisa das tradições do plano espiritual acerca dos trabalhos confiados a Paulo, apresentando acima de tudo “a figura do cooperador fiel, na sua legítima feição de homem transformado por Jesus Cristo e atento ao divino ministério”. (destaque nosso)

Emmanuel quis mostrar o coração que “se levantou das lutas humanas para seguir os passos do Mestre, num esforço incessante”. Mas, poderíamos nos questionar, para quê tanto trabalho, para quê conhecermos mais um vulto do Cristianismo, mais um exemplo de serviço ao Cristo? Já não temos tantos? A essas questões, o guia de Chico Xavier nos responde assim: “As igrejas amornecidas da atualidade e os falsos desejos dos crentes, nos diversos setores do Cristianismo, justificam as nossas intenções”. Então, Emmanuel escreveu a obra Paulo e Estêvão para tentar afastar a mornidão e os falsos desejos das Igrejas Cristãs atuais, por meio do conhecimento mais exato da vida do apóstolo dos gentios. A crer pela observação de Emmanuel, o que pode estar nos faltando como espírita-cristãos, portanto, é principalmente o fervor, a fé viva, contrária a toda mornidão e a todo desejo individual incoerente com o sentimento cristão.

A questão da mornidão é muito séria: trata-se de uma das faces da atitude farisaica que também é enfatizada no livro; é a chaga não identificada que carregamos dentro de nós e que faz com que tenhamos uma vida sem compaixão dos necessitados, indiferentes perante a dor alheia. Somos mornos, com raras exceções, porque levamos uma vida religiosa superficial, crendo que somos bons e que temos fé simplesmente porque conhecemos a Doutrina Espírita. O materialismo de nossa época contribui para que nos distanciemos dos valores reais, os espirituais, que deveriam ser vivenciados e priorizados a todo momento. O nosso local de serviço, de estudo, nosso lar constituem valiosas oficinas de trabalho no bem e exemplificação cristã, na construção desses valores. Mas como nos desvencilharmos dessa mornidão? Só com a verdadeira fé nos valores espirituais, conjugada à humildade.

É preciso compreender que fé não é a simples crença em um postulado filosófico de uma doutrina, no caso, a Espírita. A fé que nos ajuda a nos desenvolver espiritualmente é aquela que acredita e busca os valores morais dessa doutrina. Assim, tendo o Espiritismo a função de resgatar os ensinos de Jesus, é preciso que tenhamos fé suficientemente forte para acreditarmos e buscarmos os valores que o Cristo deixou. E tudo isso foi muito bem vivido por Paulo, com cujo exemplo devemos nos edificar.

Saulo era, como vimos, um fariseu do Sinédrio, mais alto órgão político-religioso dos judeus e se tornou rabino. Foi, como também já vimos, o primeiro perseguidor dos discípulos do Cristo. Não só Estevão foi vítima da sua autoridade extremista e orgulhosa, mas também inúmeras famílias cristãs de Jerusalém. Por causa das perseguições iniciadas por Saulo, houve uma grande emigração de cristãos, afugentados pelos mais cruéis castigos, infligidos àqueles que não negassem a Jesus.

Até que, disposto a perseguir Ananias – o velho que apresentara o Evangelho a sua noiva, Abigail –, nos caminhos de Damasco, sua visão dilata-se ao infinito no encontro inesquecível com o Messias de Nazaré.

“Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar-se para o solo, em pranto convulsivo. Dir-se-ia que o apaixonado rabino de Jerusalém fora ferido de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os princípios que lhe conformaram o espírito e o nortearam, até então, na vida. (...) E que amor deveria animar-lhe o coração [de Jesus] cheio de misericórdia, para vir encontrá-lo nas estradas desertas, a ele, Saulo, que se arvorara em perseguidor implacável dos discípulos mais fiéis!...”

É então que o doutor de Tarso diz inesquecivelmente “Senhor, que quereis que eu faça?”, submetendo-se completamente aos desígnios do Amado Mestre. Saulo não escolhe tarefas para servir a Jesus, demonstrando enorme humildade.  Depois da conversão maravilhosa, Saulo vai para o deserto e depois de três anos retorna a Jerusalém, onde não pôde permanecer. Resolve, então, retornar à cidade natal, Tarso, buscando o reconforto espiritual do antigo lar.

Entretanto, seu pai joga-lhe na face todas as acusações que até hoje o mundo formula aos cristãos sinceros. Por causa da conversão de Saulo, tida como loucura, sua mãe morre de desgosto, a irmã e o cunhado tiveram que abandonar Jerusalém, envergonhados perante a sociedade. Vejamos as falas do pai de Saulo:

“Cumulei-te de afagos, não poupei esforços para que pudesses contar com os mestres mais sábios, cuidei da tua mocidade, enchi-te com a ternura do coração e é desse modo que retribuis as dedicações e o carinho do lar?” “Como abandonar a situação brilhante do rabino de quem tanto esperávamos, para arvorar-se em companheiro de homens desclassificados, que nunca tiveram a tradição amorosa de um lar?” “Como abandonar o amor da família, as tradições veneráveis do teu nome, as esperanças sagradas dos teus, para seguir um carpinteiro desconhecido?” “Será justo preferir um aventureiro, que morreu entre malfeitores, ao pai digno e trabalhador que envelheceu no serviço honesto de Deus?!”

Diante da argumentação paterna, Saulo chora humilhado e cansado do desprezo. Entretanto, obrigado a escolher entre o pai e Jesus, Saulo, responde: “Meu pai, ambos precisamos de Jesus!” Ele é, então, expulso pelo próprio pai, experimentando um enorme vácuo no coração, como nunca havia sentido. Estava só. Quando Saulo já se punha a caminho das ruas de Tarso, um criado o chama entregando-lhe uma bolsa com dinheiro enviado pelo pai. Saulo revolta-se contra a situação humilhante,

“Mas considerou, ao mesmo tempo, que as provações rigorosas talvez se verificassem com o assentimento de Jesus, para que seu coração ainda voluntarioso aprendesse a verdadeira humildade. (...) o Mestre agora lhe sugeria a luta consigo mesmo, para que o ‘homem do mundo’ deixasse de existir, ensejando o renascimento do coração enérgico, mas amoroso e terno do discípulo”.

Então Saulo aceita a bolsa, esforçando-se por mostrar contentamento e gratidão. Depois disso, Saulo vai para uma gruta nas cercanias de Tarso, onde em desdobramento, vê Abigail que lhe diz: “Quando hajas esgotado a derradeira gota da posca dos enganos terrestres, Jesus encherá teu espírito de claridades imortais!... Esvazia-te dos pensamentos do mundo.”

O primeiro ponto que gostaríamos de observar nessa passagem é que Saulo não buscou causar desgosto à sua família e não estava em seus planos que suas resoluções religiosas provocassem tantos sofrimentos para os seus familiares. O que Saulo fez, e que é um grande exemplo para todos nós, foi ser sincero em sua fé e humilde para suportar acusações injustas em conseqüência de suas resoluções. Confiou inteiramente naquele que se lhe revelou como Mestre para considerar que os laços com Deus são maiores que todos os laços das tradições humanas. Nós também, assim como o pai de Saulo, temos muita dificuldade para compreendermos a atitude do novo discípulo de Jesus.

Há uma evidência de que a fé da maioria de nós anda um pouco distante da vontade de Deus. A título de reflexão, meditemos sobre essa frase do ESE: “A fé é humana ou divina, conforme o homem aplica suas faculdades à satisfação das necessidades terrenas, ou das suas aspirações celestiais e futuras”.  Em que temos tido fé? Nas conquistas humanas ou nas conquistas celestiais? Acreditamos que a maioria de nós pode reconhecer-se no grupo dos que depositam fé no mundo. Trazendo para os dias atuais, quantas vezes não observamos os títulos acadêmicos sendo mais valorizados que a realização das criaturas para Deus; quantas vezes não vemos famílias se despedaçando, porque caminham sem o rumo dos pais, completamente absorvidos por rotinas de trabalho, em nome da conquista dos excessos do luxo estritamente material? Quando questionaram Chico Xavier acerca das prioridades que ele teria na educação de um filho, se ele o tivesse, Chico responde que em primeiro lugar ensinaria o amor a Deus e em segundo que o filho não é melhor que ninguém. Será que também agiríamos assim?

Sabemos que exemplos práticos são relativos. Mas, quando educamos nossos filhos, não poucas vezes, tendemos a querer que eles sejam os melhores alunos da sala – melhores que os outros. Quando eles são alvo de escárnio dos colegas, ensinamos que eles devem se defender ou reagir de forma agressiva. Não se trata, nesses casos, de o nosso filho estar certo ou de sofrer injustiça. A questão é que, em situações como esta, pode estar se revelando uma oportunidade divina para que nossos filhos aprendam a ser humildes, a perdoarem aqueles que os ferem, e isso é glória espiritual. Mas nós mesmos temos dificuldades de compreender que isso é uma alegria; que ter essas capacidades é a verdadeira felicidade. Como conquistá-las sem a fé de que elas são de fato a verdadeira felicidade? Paulo, em sua carta aos Filipenses, afirma: “cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Não há interpretações para essas palavras, como também não há para as de Jesus “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é (já é) o reino dos céus”. Para nós nos iluminarmos é preciso que tenhamos fé nisso, fé na nossa pequenez, que é real.

Por que temos tanta dificuldade de acreditar nessas idéias básicas e vivermos o Evangelho, que é lição de humildade e perdão? Ermance Dufaux, no livro Reforma Íntima Sem Martírio, nos responde essa pergunta assim:

“É penoso viver o Evangelho porque, em verdade, é penoso o contato com o nosso ‘eu real’, para o qual toda mensagem de Jesus é dirigida. E para evitar esse contato, a mente ‘capacitou-se’ a gerir as ilusões em milênios de experimentações, sendo muitas delas um mecanismo de fuga e ‘proteção’ para isentar-nos do contato doloroso com a Verdade sobre nós próprios”.

Ou seja, se não somos humildes, não podemos conhecer a nós mesmos, e assim não reconhecemos que precisamos profundamente do evangelho de Jesus e que Ele é o nosso único remédio. Daí os espíritos dizerem que devemos concentrar todos os nossos esforços em combatermos nosso orgulho. O capítulo XI do ESE traz, no item 13, importante consideração a esse respeito:

“Hoje, na vossa sociedade, para serdes cristãos, não se vos faz mister nem o holocausto do martírio, nem o sacrifício da vida, mas única e exclusivamente o sacrifício do vosso egoísmo, do vosso orgulho e da vossa vaidade. Triunfareis, se a caridade vos inspirar e vos sustentar a fé.”

Pela superficialidade da nossa fé, em razão da mornidão, muitas vezes oferecemos extremado luxo aos filhos ou a alguém necessitado (materialmente), achando que estamos sendo REALMENTE caridosos, quando estamos, ao contrário, estimulando o egoísmo, a retenção, o apego, porque nós mesmos depositamos mais fé na matéria do que no espírito. Não é bem assim que as entidades exemplares agem. Portanto, até na caridade material, devemos ter o cuidado de refletir acerca dos nossos reais deveres e valores.

Voltando ao exemplo de Paulo, em outra observação, talvez a mais importante, concluímos que Saulo soube ser desprezado por todos em nome de Jesus. Sofreu a humilhação do próprio pai, e isso foi para ele a glória. Não que Saulo não sofresse pelas palavras e atitudes de reprovação do pai, mas soube ser humilde, aceitar essas reprovações em nome de sua fé... Além da fé profunda em Jesus, soube ter fé na mais profunda humildade, como valor ensinado pelo Mestre ao seu coração, naquele instante de provação. Revelou fé na humildade, não só porque, suportou as ironias do pai, mas, principalmente, porque soube abdicar de sua posição de rabino, de sua condição de destaque social, de sua riqueza, de seu conforto, de seus sonhos pessoais, de sua saúde, de tudo em nome de seguir o caminho que lhe pareceu o mais acertado espiritualmente. O que nós, atualmente, podemos aprender com isso é que nenhuma de nossas vontades deve estar acima das vontades de Deus. Deus pediu a Saulo, mais tarde batizado como Paulo, a renúncia completa de todas as vantagens materiais, por causa da missão que lhe cabia e do galardão que buscava, que era o mais importante.

Concluímos também que não deveremos agir somente de forma externa, até porque foi o apóstolo Paulo mesmo que disse em Coríntios 13, que se doássemos toda nossa fortuna, sem amor, isso de nada valeria. A caridade externa é importante começo, mas, como diz Emmanuel na lição 110 do livro Vinha de Luz, sem a caridade essencial não poderemos efetuar a edificação e a redenção de nós mesmos. O que Deus nos pede é que sejamos humildes para aceitarmos Sua vontade bondosa e justa em todos os lances da vida, sem a menor desconfiança de Seu amor infinito. Pede-nos ainda que sejamos humildes a ponto de desculparmos toda ofensa, porque toda incompreensão que nos chegue ao coração, por parte daqueles com quem convivemos, é a sublime oportunidade de nos aproximarmos de Jesus, o Grande Incompreendido da Humanidade. No cap. XVII do ESE, os espíritos nos aconselham ainda:

“(a perfeição) está nas reformas que fareis vosso espírito suportar; dobrai-o, submetei-o, humilhai-o, mortificai-o: é o meio de torná-lo dócil à vontade de Deus, e o único que conduz à perfeição”.

Acreditamos ser preciso que tenhamos fé em que isso é mais importante do que todas as coisas com as quais temos gastado nossos dias e nossas energias. Esforçando-nos nesse sentido, cremos, estaremos caminhando da mornidão para a verdadeira fé.

Para finalizarmos nossas reflexões, queremos lembrar que Emmanuel não nos presentearia com essa obra maravilhosa se não fôssemos capazes de aprender com esses exemplos e de nos transformarmos com eles. Jesus não viria à Terra  e não diria “vós sois deuses, podereis fazer tudo o que eu faço e muito mais”, se  nós fôssemos completamente incapazes para seguir os passos do Mestre. Então, sintamos o amparo que a Espiritualidade nos dá neste instante, para que este seja um dos muitos encontros que temos com Jesus, que nos fará mais fiéis ao Divino Amigo. No ESE, cap. 19, item 12, um Espírito Protetor nos diz:

“Se todos os encarnados se achassem persuadidos da força que em si trazem, e se quisessem pôr a vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o a que, até hoje, eles chamaram prodígios e que, no entanto, não passa de um desenvolvimento das faculdades humanas”.

Entendemos que necessitamos empreender um movimento íntimo de mudança de velhos hábitos e erros em novas atitudes embasadas no bem. Boa vontade, determinação, perseverança são atitudes imprescindíveis para que se opere em nosso interior a transformação necessária do homem velho, Saulo, no homem novo, Paulo.

Somos convidados por Jesus a deixar de sermos mornos e termos mais fé no espírito. Cada um, neste instante, está recebendo do Senhor um convite a ser mais amoroso e, portanto, mais feliz. Cada um está recebendo agora as forças que precisa para ser mais humilde na convivência em família, no local de trabalho, em qualquer lugar. Cada um recebe o chamado do Senhor para que toda ofensa seja perdoada; para que acreditemos que todas as dificuldades são enviadas por Deus para o nosso bem, para a nossa libertação, para acreditarmos nos valores espirituais. Todos trazemos um homem novo em potencial. Cabe a nós despertarmos para o bem, trilhando os caminhos luminosos que nos levam a Jesus.